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Vol. 95. Núm. 4.
Páginas 527-528 (01 Julho 2020)
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Vol. 95. Núm. 4.
Páginas 527-528 (01 Julho 2020)
Carta – Investigação
DOI: 10.1016/j.abdp.2019.10.004
Open Access
Detecção molecular do poliomavírus de células Merkel em carcinoma basocelular e no tecido perilesional: um estudo transversal
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Marianna Tavares Venceslau Gonçalvesa, Rafael Brandão Varellab,
Autor para correspondência
rvarella@id.uff.br

Autor para correspondência.
, Núbia Karla de Oliveira Almeidac, Maria Angelica Arpon Marandino Guimarãesa, Flávio Barbosa Luzd
a Departamento de Medicina Preventiva, Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
b Departamento de Microbiologia e Parasitologia, Instituto Biomédico, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
c Departamento de Estatística, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
d Setor de Dermatologia, Hospital Universitário Antônio Pedro, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
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Tabelas (1)
Tabela 1. Concordância da detecção de MCPyV em lesões de CBC (n=45) e pele perilesional correlata
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Prezado Editor,

O até agora único poliomavírus humano oncogênico, o poliomavírus de células Merkel (MCPyV), foi descoberto na última década, infecta cerca de 80% dos carcinomas de células Merkel (CCM)1 e 40% de indivíduos saudáveis.2 Originado de células localizadas na camada basal da epiderme, o CCM é tipo raro e extremamente agressivo de câncer de pele não melanoma (CPNM), que geralmente afeta idosos, brancos e imunocomprometidos em áreas do corpo com alta exposição à radiação ultravioleta (UV). Compreendem as neoplasias mais prevalentes em todo o mundo. Os CPNM têm sido investigados para buscar e elucidar outros fatores de risco, como infecções por oncovírus. Nosso grupo foi responsável pelo primeiro estudo em uma população brasileira, com 32% de positividade para MCPyV em biópsias de vários CPNM.3 Neste estudo, focamos na investigação do MCPyV exclusivamente em pacientes com carcinoma basocelular (CBC).

Analisamos uma amostragem de conveniência composta por biópsias congeladas e tecido perilesional oriundos de 35 pacientes consecutivos com diagnóstico histopatológico de CBC tratados no Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP‐UFF) entre setembro de 2017 e dezembro de 2018. Os dados demográficos foram coletados durante a entrevista ao exame médico. A etnia foi definida pelo dermatologista, de acordo com o fototipo do paciente, classificado em “branco” ou “não branco”. A localização do tumor foi usada para inferir a exposição solar (alta, moderada ou baixa). Todas as amostras tiveram DNA extraído com um kit comercial. O DNA do MCPyV foi detectado por PCR aninhado para a região LT3.3 A análise estatística foi feita com o software SPSS statistics 20 (SPSS, Inc., Chicago, IL, EUA). Todos os indivíduos concordaram em participar e assinaram um consentimento informado. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade.

Oito dos 35 pacientes contribuíram com mais de uma lesão. Em geral, os pacientes eram idosos (72,4±11,8), predominantemente do sexo feminino (62,9%), brancos (94,3%) e imunocompetentes (97,1%). As comorbidades mais comuns encontradas foram hipertensão arterial sistêmica (68,6%) e diabetes mellitus tipo 2 (14,3%). Onze pacientes com história prévia de neoplasia e três com lesões pré‐malignas no momento da cirurgia também foram identificados. As lesões localizavam‐se principalmente na cabeça (68,7%), no pescoço (14,6%), nos membros superiores (10,4%) e membros inferiores (6,3%).

Os pacientes foram classificados como MCPyV+se pelo menos uma lesão tivesse DNA viral detectável e resultou em nove (25,7%) pacientes com MCPyV+. Em relação às margens cirúrgicas, oito (22,8%) pacientes eram MCPyV+. Não foi encontrada associação estatisticamente significante (valor de p ≤ 0,05) entre a positividade do MCPyV e gênero, etnia, idade, exposição solar e estado imunológico dos pacientes. Já a positividade para o MCPyV ao considerar as lesões (n=45) e tecido perilesional associado foi de 45,5% e 54,5%, respectivamente. Entretanto, o nível de concordância entre lesão versus tecido perilesional associado foi considerado baixo (kappa=0,174) (tabela 1); dez (28,6%) pacientes apresentaram discordância para ambas as amostras.

Tabela 1.

Concordância da detecção de MCPyV em lesões de CBC (n=45) e pele perilesional correlata

Tipo de amostraPele perilesionalÍndices kappa (95% CI) 
    +     
CBC+  0,174 (−0,128‐0,476)
  25 

CBC, carcinoma basocelular.

Como é um vírus epiteliotrópico e oncogênico recentemente descoberto, o MCPyV tornou‐se alvo de pesquisa por sua possível relação ao CPNM. Como importantes fatores de risco do CPNM ainda carecem de compreensão abrangente, este estudo teve como objetivo avaliar a positividade do MCPyV no CBC em 35 pacientes. Nossos resultados mostram que 25,7% dos pacientes eram positivos para MCPyV, comparáveis a outras populações estudadas.3

Segundo os resultados, as lesões do CBC e tecido perilesional foram semelhantes para a detecção do MCPyV, indicaram que o vírus está espalhado ao redor do tecido, independentemente de presença ou ausência de lesão, tal como indicado pelo baixo nível de concordância para detecção viral. Entretanto, se o MCPyV é acidental ou tem algum papel no desenvolvimento do CBC, por meio da integração genômica e inibição de vias reguladoras celulares,4 não é sabido. Entretanto, supõe‐se que os oncovírus possam fornecer as condições favoráveis iniciais para o desenvolvimento de neoplasias pelo mecanismo hit and run, dificulta a detecção do agente após o estabelecimento da lesão.5

A falta de associação entre a detecção viral no CBC e os dados clínicos e demográficos indica que eles não são fatores determinantes. Em relação às comorbidades dos pacientes, nenhuma mostrou significância para a positividade do MCPyV (dados não mostrados). Infelizmente, não fomos capazes de testar essas lesões pré‐malignas para detecção viral.

Embora, a partir de nossos achados, o MCPyV pareça não se correlacionar com os principais fatores de risco para o CBC, este estudo amplia o conhecimento do MCPyV na população brasileira. Mesmo com sua característica mistura étnica, nossa população continua a ser uma das mais afetadas pelo CPNM em todo o mundo e, portanto, todo o conhecimento sobre possíveis associações de fatores de risco torna‐se relevante.

Suporte financeiro

Funaderm (Fundo de Apoio à Dermatologia) da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e, em parte, Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) ‐ Código Financeiro 001.

Contribuição dos autores

Marianna Tavares Venceslau Gonçalves: Elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.

Rafael Brandão Varella: Análise estatística; aprovação da versão final do manuscrito; concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.

Núbia Karla de Oliveira Almeida: Obtenção, análise e interpretação dos dados; revisão crítica da literatura; revisão crítica do manuscrito.

Maria Angelica Arpon Marandino Guimarães: Elaboração e redação do manuscrito; participação efetiva na orientação da pesquisa; revisão crítica do manuscrito.

Flávio Barbosa Luz: Aprovação da versão final do manuscrito; concepção e planejamento do estudo; elaboração e redação do manuscrito; obtenção, análise e interpretação dos dados; participação efetiva na orientação da pesquisa; participação intelectual em conduta propedêutica e/ou terapêutica de casos estudados; revisão crítica do manuscrito.

Conflitos de interesse

Nenhum.

Referências
[1]
H. Feng, M. Shuda, Y. Chang, P. Moore.
Clonal integration of a polyomavirus in human Merkel cell carcinoma.
Science., 319 (2008), pp. 1096-1100
[2]
R.M. Schowalter, D.V. Pastrana, K.A. Pumphrey, A.L. Moyer, C.B. Buck.
Merkel Cell Polyomavirus and Two Previously Unknown Polyomaviruses Are Chronically Shed from Human Skin.
Cell Host Microbe., 7 (2010), pp. 509-515
[3]
T. Bellott, C. Baez, S.G. Almeida, M.T. Venceslau, M.G. Zalis, M.A. Guimarães, et al.
Molecular prevalence of Merkel cell polyomavirus in nonmelanoma skin cancer in a Brazilian population.
Clin Exp Dermatol., 42 (2017), pp. 390-394
[4]
S. Bofill-Mas, J. Rodriguez-Manzano, B. Calgua, A. Carratala, R. Girones.
Newly described human polyomaviruses Merkel Cell KI and WU are present in urban sewage and may represent potential environmental contaminants.
[5]
R. Houben, J. Grimm, C. Willmes, R. Weinkam, J. Becker, D. Schrama.
Merkel cell carcinoma and Merkel cell polyomavirus: Evidence for hit‐and‐run oncogenesis.
J Invest Dermatol., 132 (2012), pp. 254-256

Como citar este artigo: Gonçalves MTV, Varella RB, Almeida NKO, Guimarães MAAM, Luz FB. Molecular detection of Merkel cell polyomavirus in basal cell carcinoma and perilesional tissue: a cross‐sectional study. An Bras Dermatol. 2020;95:527–8.

Trabalho realizado no Departamento de Dermatologia, Hospital Universitário Antônio Pedro, Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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Idiomas
Anais Brasileiros de Dermatologia (Portuguese)

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